deepbluecicatrizestática

o que não consigo matar é o eclipse de 1995. que dentro de uma cidade de interior eu vi o sol do meio dia apagar de repente. urano em capricórnio. foi o primeiro abismo que senti. até esse dia, já tinha perdido dois dentes e frequentava o mar apertando os olhos de sal um sal fundo que fazia chorar, um sal que engoli fundo e não conseguia enxergar. agora repito os nomes de satélites artificiais que soterram a órbita do planeta de cabos invisíveis. estou desaparecendo. os satélites se alimentam de luz solar que cai na terra como ondas eletromagnéticas estéreis, que movem campos e águas enquanto ligamos antenas parabólicas. a comunicação sem fio usa ondas eletromagnéticas para transportar sinais. estas ondas requerem linhas de visão, e são, portanto, obstruídas pela curvatura da Terra.

estou desaparecendo

aos poucos esqueço o significado das coisas

a ordem das afecções

estou entrando em letargia

não sou afetado pelos acontecimentos

porque já não reconheço o valor deles

é como o verbo chover

é como um choque elétrico

 

esqueço as referências subjetivas para me disparar uma reação

parece então que não sou afetado porque nada é familiar para o meu português

a melancolia foi ultima palavra

o último sentimento inventado